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Há dias bons e dias maus. Ponto final. Parágrafo

Há dias bons e dias maus. Ponto final. Parágrafo

15
Jan23

OS HOMENS NÃO CHORAM

Maria Pinto

 

Os homens não choram…

Os homens não choram…

Os homens não choram!

 

Soltam a raiva contida em gritos,

Desfazem cabeças que rolam,

Abrem corações ao meio,

Esventram torturas, novas e antigas.

 

Podem soltar um suspiro,

Podem humedecer os olhos,

Podem fungar num desvario,

Podem olhar com mirar esguio,

Podem sofrer com coração dilacerado,

Podem pensar loucuras até à exaustão,

Mas não lhes é permitido chorar!

 

Que não rolem as lágrimas pela cara,

Que não solucem, nem baixinho as mágoas,

Que não chorem iras retidas,

Não, isso não lhe sé permitido!

 

Controlem o choro,

Retenham as lágrimas,

Calem os soluços,

Afaguem os receios,

Não vos é permitido viver humanamente, drasticamente,

Completamente e absolutamente como um ser inferior.

Ainda bem que sou mulher!

08
Jan23

Posso ser ovelha, mas pelo menos sou negra!

Maria Pinto

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"

Tenho a sensação, que está cada vez mais presente em mim, de que ando do lado errado da auto-estrada. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que olho para o mundo e, principalmente para as outras pessoas, e penso que na generalidade sigo e tento seguir um caminho diferente. Quer dizer que a minha postura na vida me parece divergente e que não me entendo com as outras pessoas. Não, não significa que não goste de pessoas, simplesmente não sou como a maioria delas…

Talvez, na realidade, seja apenas uma fantasia minha , achar que sou diferente. Possivelmente haverá milhões a pensarem exatamente a mesma coisa…

Quando era adolescente e já no início da vida adulta, dizia frequentemente que não queria ser apenas mais uma ovelha… que não pertenceria ao rebanho. Passados uns anos, sou uma ovelha igual a tantas outras. Tenho a minha família, o meu trabalho, os meus amigos… luto por ter uma vida melhor… Porto-me bem, pago impostos e não quebro as regras. Não sou do contra… aparentemente! Não sou do contra socialmente e independentemente do partido do governo. Não aceito e não corroboro as intenções dos vários partidos, mas isto não faz de mim uma pessoa à parte. Hoje em dia em Portugal, o meu querido país, a grande parte da população acha o mesmo que eu… Assim, porque digo eu que ando do lado errado da auto-estrada? Porque não entendo bem os valores da nossa sociedade para a qual também contribuo. Não percebo porque é que os jovens não se levantam para dar o seu lugar a um idoso nos transportes públicos, não percebo porque as pessoas correm, não falam e não ligam ao outro e não se preocupam em fazer melhor. Porque não dão o seu melhor. Não concordo com o empurrar o mundo com a barriga e lá se vai andando, como Deus quer! Não aceito a mesquinhez, a ignorância, a preguiça, a incompetência… Todos queremos melhor mas, parece-me que, poucos fazem por isso… O trabalho é bom para ganharmos o nosso ao fim do mês mas não vemos o trabalho como algo que dignifica a nossa pessoa. Que nos faz sermos realizados e contribuirmos para um país e sociedade melhores… Não, não sou workaholic e estou muito longe de pensar que sou a melhor profissional. Tenho pelo menos a humildade e o bom-senso de ainda sentir que tenho muito a aprender e a trabalhar. Simplesmente sou exigente comigo mesmo. Talvez seja por isso que também exijo aos outros. Como mãe queria deixar alguns valores incontornáveis às minhas filhas: a educação (que nunca fez mal a ninguém e é sempre uma arma a nosso favor), a justiça (todos deveríamos procurar a verdade e tentar equilibrar o mais possível a sociedade e não deixo de achar que quem trabalha mais tem de ser mais compensado, mas a justiça perante qualquer ser humano é o mínimo que deveria ser exigido), a verdade (por favor, não à mentira e a todos os que a apoiam.... tanta corrupção leva ao desânimo, ao descrédito e à desmotivação), o trabalho (um verdadeiro valor, uma dignificação e um prazer que nos devemos dar, com o sentido de utilidade aos outros mas principalmente a nós próprios), a responsabilidade (querer seguir regras não significa que sejamos cordeiros/ovelhas amainados, significa podermos viver melhor em sociedade) e a generosidade (praticar o bem, podermos dar um pouco de nós aos outros).

Talvez isto seja apenas um desabafo ou um pequeno exercício de utopia. O sonho existe e a esperança é sempre a última a morrer. Tenho duas filhas e quero acreditar que o futuro será mais risonho e mais leve.

Ainda que tenha a perfeita noção do que aqui digo é subscrito por muita gente, a verdade é que me sinto, muitas vezes, à parte neste mundo. Às vezes, a única forma de me ver é no meu próprio mundo. Refugiando-me de tudo e de quase todos, tentando apenas seguir o meu caminho da maneira mais verdadeira para comigo mesmo. Enquanto eu sentir que me sou válida e que me sigo pelos meus próprios princípios, sei que vou estar bem, ou pelo menos melhor!

Assim, posso ser ovelha, mas pelo menos sou negra. Ando no rebanho mas por vezes escapo-me, mas não de mim mesma!

“Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!”

   Cântico negro, José Régio

01
Jan23

INSTANTE

Maria Pinto

 

Neste pequeno instante, efémero e singelo

Adornado de silêncio e almofadado pelo vazio,

Sou eu apenas a nú

Na escuridão do mundo frio.

 

Cabeça vazia de sentimentos e palavras,

Coração cheio de alegrias contidas,

Um sorriso paira na boca de lábios finos

E uma lágrima corre pela face enrubescida

 

Que momento tranquilo

Que amansa feras

Aquece o corpo e conforta a alma.

A vida é feita de sonhos e quimeras,

Tudo isto num instante de calma!

 

25
Dez22

O que será de mim sem ti?

Maria Pinto

O que será de mim sem ti?


Não faço ideia qual será a resposta a esta pergunta. Fico a pensar nela e assusta-me o futuro. Assusta-me porque não sei o que sucederá e quando não se controla algo, parece que esse algo se torna um monstro enorme que nos pode comer.


Assustada, amedrontada, fico aninhada na esquina da divisão e com o coração aos pulos, só digo, um dia de cada vez, o que importa é o presente. Vai tudo correr bem! Frases feitas, necessárias e sábias, quanto mais não seja para travar a aceleração inusitada do coração. Os pensamentos livres sucedem-se vertiginosamente na cabeça e só penso: um dia de cada vez, o que importa é o presente. Vai tudo correr bem!


E vai tudo correr bem! Claro que sim. Porque não? Porque pensar no futuro, provavelmente bem longínquo? Não. Não se pensa no futuro. Pensa-se no presente. Porque o presente é uma espécie de prenda que nos vai sendo dada (para os que creem). E tudo bem! O presente é que importa. O passado também. O passado é fundamental. Como uma coletânea de memórias, que nos vai afagando a cabeça e nos coloca um sorrido na cara. As poças na infância com as galochas amarelas, os carnavais com as diversas vestimentas, os Natais em família e a loucura antecipada dos presentes, as festas de aniversários, os encontros entre amigos, as viagens sucedâneas, o primeiro beijo, o primeiro amor, o dia de casamento e o nascimento das filhas, o primeiro mamã, o primeiro papá, os primeiros dias de entrada na escola, os jantares a dois, as roadtrips em família, as músicas, o cinema…e…tanta coisa. E nisto o meu coração a diminuir ritmo… eu já com um sorriso nos lábios…


E os desgostos também. O passado é crucial, pelo bom, mas também pelo mau. Por tudo aquilo que queríamos fazer e não fizemos, por tudo o que dissemos e não deveríamos ter dito, por tudo o que fizemos e que não deveria ter sido feito. O que perdemos, o que não achamos, o que nos custou a ganhar e se foi. As pessoas que nos pertenceram e que já não podemos abraçar.


Voltando ao presente… não sei onde acabo e tu começas. Isso é mais do que aterrador. É inconcebível. Sei que somos seres independentes e trabalhamos e funcionamos diariamente em separado, mas o problema é que não sei onde acabo e tu começas.


Mas não vou pensar no futuro. Não! Vou manter-me no presente, aproveitando este dia que me foi dado. Pode até estar acelerado, mas assim, como assim, o coração bate!

18
Dez22

Acreditarei em milagres?

Maria Pinto

Acreditarei em milagres?

Este foi um conto que escrevi há uns anos e foi, inclusivamente, publicado numa coletânea de contos. Como estamos na época natalícia...aqui vai:

De longe, vi-a olhar para a montra daquela loja de brinquedos. Não teria mais de oito anos. Magricela, esfarrapada e despenteada, percebi logo que não poderia entrar naquela casa comercial e comprar o que quereria. Estava acompanhada pela mãe, que estava a falar com uma pessoa! Fiquei especada a ver aquela cena e não consegui tirar os olhos daquela miúda, que tinha já ambas as mãos e o nariz encostados ao vidro da loja, como se lhe quisesse penetrar e pudesse arrancar de lá o objeto do seu desejo. Do sítio onde me encontrava, um pequeno café, sentada junto à janela, assistia a tudo, com alguma pena por aquele pequeno ser, que provavelmente no Natal não teria o que queria, mas o que podia. Talvez comida, já não fosse mau…

Sem retirar os olhos da criança, ouço ao lado um casal de velhotes, que, enternecidos, fazem juras de amor e que garantem que há milagres, como o seu bem-querer!

Acreditarei em milagres?

Neste pensamento solitário, bebendo o meu chocolate quente, neste dia invernoso, ouvindo falar de amor e mirando a pobre criança, reparo que outra criança de igual idade sai da loja com uma maravilhosa boneca de cabelos dourados. Com o entusiasmo de ter o seu brinquedo nas mãos, ao sair em êxtase, embarra na pobre miúda que tinha abandonado o vidro e saltava nas poças de água da chuva que tinha caído… Nisto, a boneca e a gorducha caíram ao chão. O pai apanha a boneca, tentando consolar a filha, que iniciou o choro por ter deixado cair a sua encantadora nena. A magricelita bem olhou para a boneca e ao ajudar a levantar a outra miúda, pegou no objeto do seu desejo, com os olhos cravejados nos fios louros do seu cabelo. O senhor agradeceu à miúda o gesto de auxílio e vendo a boneca suja, entrou de novo na loja…

De repente, começa a nevar e eu sinto um certo aquecer de coração. Como é bonita esta altura do ano com neve! No meu sorriso contido, começo a sentir uma espécie de conforto e, nesse preciso momento, pensando em me levantar para poder sair para a rua e apanhar com os flocos mesmo em cheio no rosto, vejo o pai, a sair da loja, com a sua filha que tinha duas bonecas nas mãos. A bolachudita deu a boneca caída anteriormente à miúda que a tinha ajudado a levantar. A criança olhou para a mãe sem perceber se o que estava a acontecer era mesmo verdade. A mãe, humilde, agradeceu e anuiu em aceitar o brinquedo. Despediram-se. De longe, no meu aconchego, vi o deslumbramento desta pequena miúda ao agarrar a sua boneca nova, suja, mas nova e quase tenho a certeza de que rolava na sua cara uma lágrima grossa.  Tenho a certeza de que dos meus olhos brotaram duas lágrimas também.

Afinal, até pode haver milagres!

Saí para a rua, atravessei a estrada e raspei ao de leve na magricela e desejei-lhe baixinho: “Feliz Natal!”

 

11
Dez22

E já agora, a rir-me muito de mim, talvez isso me cure!

Maria Pinto

Deixo aqui uma frase  do livro "O apicultor de Alepo" de Christy Lefteri , que li: “Dentro da pessoa que conheces, está uma pessoa que desconheces”…é um ditado sírio…

E ainda do livro "O Homem em busca de um sentido", de Viktor E. Frankl: “…tudo pode ser tirado a um homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas – a possibilidade de escolhermos a nossa atitude em quaisquer circunstâncias, de escolhermos a nossa maneira de fazer as coisas";

De Dostoiévski: “ Há só uma coisa que temo: não ser digno dos meus sofrimentos.”…e depois do mesmo autor…”…a derradeira liberdade interior nunca se poder perder…”, “…não importava verdadeiramente o que esperávamos da vida, mas antes o que a vida esperava de nós…”

De Nietzsche: “Aquilo que não me mata, torna-me mais forte”;

De Gordon W. Allport: “ O neurótico que aprende a rir-se de si mesmo pode estar a caminho de uma situação estável, talvez mesmo da cura”.

Frases feitas, há muitas. Umas gostamos, outras não percebemos, outras abominámos. As frases que acima transcrevi são alguns exemplos do que acabei de dizer. Gosto muito do ditado sírio. Não percebo bem a de Nietzsche, porque há coisas que não nos matam, mas marcam-nos de tal forma, que até podem fortalecer, mas muitas vezes enfraquecem... Já a "Há só uma coisa que temo: não ser digno dos meus sofrimentos", não gosto mesmo. Quem gosta de sofrer? E, ainda assim, do mesmo autor, gosto muito da última frase...o que a vida espera de nós...

Não sei bem o que a vida espera de mim, mas pago para ver! Porque "Eu sei que não sou nada e que talvez nunca tenha tudo. À parte isso, eu tenho em mim todos os sonhos do mundo" (Fernando Pessoa)...E já agora, a rir-me muito de mim, talvez isso me cure!

04
Dez22

Quem és tu?

Maria Pinto

Quem és tu?

Quem és tu, que me olhas de frente,

Que me olhas como se me conhecesses!

Que me olhas como se me pertencesses!

 

Não, não estou a inventar!

Estou apenas a confirmar,

Que o teu olhar é como um vulto,

Uma sombra, ensombrada!

Que me atormenta e maça,

Que me sacode e me desperta!

 

Há algo em ti que me parece tão familiar!

Tão familiar!

Quem és tu, afinal?

Com esses cabelos que reconheço,

E com os olhos profundos,

Com o sorriso tímido.

Quem sou eu, que te mereço?

Que sou, o que procuras!

 

Ah, já percebi!

Não tinha reparado no espelho!

Afinal, és tu que eu vi

E eu sou para ti,

O que és para mim,

A única e mesma pessoa!

28
Nov22

Lenine, Porto, Concerto, Casa da Música, Rizoma...há coisas que fazem mesmo sentido na vida! Que é rara!

Maria Pinto

ri·zo·ma|ô|

(grego rhizóma,-atos, conjunto das raízes de uma planta)
nome masculino

  1. [Botânica] Espécie de caule geralmente subterrâneo, quase sempre horizontal.

     2.Causa, origem ou fundamento de alguma coisa (ex.: espero encontrar o rizoma do problema). = RAIZ..."rizoma", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021,https://dicionario.priberam.org/rizoma

Andava eu na Faculdade, há milhares de anos atrás e, como era hábito, às sextas-feiras à noite, eu e o meu grupo encontrávamos-mos no Piolho (o nosso café referência durante toda a faculdade) e depois decidíamos para onde íamos a seguir.

Numa noite, pleno verão, uma amiga senta-se à mesa, pede uma cerveja e diz: "Já sei aonde vamos hoje! Vamos às noites do Palácio de Cristal e vamos ver Lenine”! Um de nós, o D, sentado à mesa disse apenas: "Lenine… Deve ser bom, deve. A começar pelo nome”! A L. apenas disse que era um cantor promissor na nova cena musical brasileira e que tinha lido críticas excelentes! Não ficámos convencidos! Até que ela disse: “Não se paga bilhete”! Aí, ficámos convencidos. Um grupo de universitários, sem querer gastar muito dinheiro e lá fomos a pé pelas ruas maravilhosas do meu querido Porto, do Piolho ao Palácio! A gozar bastante, uns mais do que os outros a dizer que ia ser o concerto da nossa vida!

Chegámos e, como não havia muito gente, posicionámo-nos em frente do palco! À espera…

De repente entram músicos no palco, palmas, sorrisos e mais ainda quando aparece um homem com cabelo comprido até ao rabo! Juro, que pensei: “O que estou eu a fazer aqui?”

Figura simpática, riso enorme, sincero e, entretanto, começa o concerto. Necessitei, talvez, de 30 segundos para ficar muito interessada na música e na letra. Adorei a canção. Adorei. Seguiram-se outras, muitas mais e sempre que havia uma nova, era uma descoberta de palavras, trocadilhos, sons, arranjos…espetacular! Saí do concerto com a alma cheia e a dizer para mim mesma que no dia seguinte ia comprar os CD´s dele.  E assim foi. Aquele concerto abriu-me a um mundo novo e diferente da música brasileira que estava acostumada a ouvir.

O tom intervencionista, as diferentes sonoridades, os arranjos, a riqueza das palavras, o seu conteúdo, o seu contexto, o cantar o Brasil com todas as suas multiplicidades! Gosto muito de Lenine, pelo que ontem, não poderia deixar de ir ao seu concerto na Casa da Música!

Veio com o seu filho, apresentar o espetáculo, Rizoma! Rizoma, raízes, ele e o seu filho, como que prolongamento de algo que não está só nos genes, mas na imensa partilha de sonoridades e de vida. As mesmas músicas com arranjos diferentes, mais jovens, ousadas, outras músicas novas, surpreendentes e com o mesmo tom reivindicativo e de alerta! Foi o Lenine de sempre, e muito bem acompanhado e que encheu a sala Suggia! Tão bom!

E nisto dou comigo a pensar, quando é que foi a primeira vez que o ouvi? Talvez há 19-20 anos. Disse ao meu marido: "Seguramente há 19-20 anos". E penso no Piolho, no Palácio, no concerto maravilhoso e tive de ir ver ao Dr. Google, quando é que foi o 1º concerto de Lenine no Porto. Remonta a 14 de julho de 2000! Foi há mais de 22 anos!

Nestes 22 anos, muito se passou. Inclusivamente, já mostrei muitas das suas músicas às minhas filhas que gostam especialmente de “Relampiano” e “Paciência”.

Não é fechar nenhum ciclo, é apenas mais uma estação no nosso caminho. Seguimos vias diferentes, caminhos diferentes e encontramo-nos nestes concertos pontuais em que por umas horas, ouço música boa e tenho um sorriso na cara! Quando vier outra vez ao Porto, acho que vou lá estar! Como diz numa das suas letras “A vida é rara” e é mesmo. Há que aproveitar e no caminho, deixar algo aos filhos, principalmente as coisas boas da vida, para que nesta passagem tão efémera possamos ser felizes!

20
Nov22

O sexo feminino é, aparentemente, o mais fraco!

Maria Pinto

O sexo feminino é, aparentemente, o mais fraco!

Bem sei que esta frase é polémica e nada consensual, mas, para mim, lamentavelmente, é verdadeira.

Não basta sentir e dizer, é necessário avaliar e analisar números, estatísticas, probabilidades…

Segundo a APAV, a violência doméstica engloba diferentes tipos de abuso, tais como: emocional, social, físico, sexual, financeiro e perseguição. Apesar de se saber que há casos em que a vítima é do género masculino, a maioria dos casos deste tipo de violência é contra as mulheres! Continuam a ser as principais vítimas e representam cerca de 78 % do total. Têm uma média de idades de 40 anos e quanto ao grau de ensino: ensino superior (6,8%) ensino secundário (5,8%) terceiro ciclo (5,4%)… Quanto à relação com autor/a do crime: cônjuge (15,5%) companheiro/a (8,5%) pai/mãe (7,8%) ex-companheiro/a (7,5%) filho/a (6,4%). (Estatísticas APAV – Relatório anual de 2021). Muito interessante… Estes números inquietam-me, mas acho, particularmente relevante saber que mulheres com ensino secundário, que supostamente deveriam ter maior autonomia financeira e educação mais abrangente, também possam ser vítimas e os próprios filhos podem ser os agressores (a quem os colocou neste mundo e que lhes deu vida!). Curioso, não é?

Não quero de todo distinguir classes sociais, mas apenas refletir acerca de um problema que é sério, grave e que tem mais que ver com a tradição, talvez cultura, do que com o ensino! Quanto aos filho(a)s serem os agressores, deixa-me boquiaberta! Foram as mães, vítimas, que participaram na sua educação, certo? O que está errado? Tantas variáveis… Tantas!

No nosso país as mulheres com o mesmo patamar de literacia que os homens, não auferem, em média, o mesmo salário. É menor! Segundo dados do INE, no último trimestre de 2021, o rendimento médio mensal líquido dos homens foi de 1102 euros enquanto o das mulheres foi de 929 euros. Mulheres ganham menos 16% do que os homens embora tenham mais habilitações.

E isto no nosso país, que pertence à Europa e que tem um Índice de Desenvolvimento Humano muito alto. Em 2021 estava na posição 38.

E ainda bem que nasci em Portugal. Porque apesar destes números, vivo num país que me deixa vestir o que quero, que me deixa dizer o que quero, sinto que tenho liberdade e, de uma forma geral, segurança.

Se avaliar outros países, outras realidades… pode ser bem pior! Retirei nomes de países, porque o que me interessa não é criticar o povo ou o país, é criticar as práticas e os costumes em pleno século XXI.

Li um artigo da National Geographic de 2018… “...ao longo da fronteira empobrecida do …, raparigas com idades tão precoces como 8 anos são oferecidas em casamento pelas respetivas famílias…Tecnicamente, o casamento de crianças é ilegal na …." e  “As viúvas são as vítimas silenciosas da …, onde as mulheres são cidadãs de segunda”, denuncia o jesuíta Anthony Samy Cyril.

Um relatório da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas no … “…mulheres e meninas enfrentam uma “existência infernal” marcada por violações generalizadas realizadas por “todos os grupos armados em todo o país.”

Muitos outros países têm uma má reputação por serem considerados um centro de turismo sexual e de prostituição infantil (mais no feminino). E quem são os turistas? Grande parte europeus!!!!

A mim não me perturba que uma mulher use burka, desde que a queira usar. Incomoda-me muito se tiver de a usar, mesmo que não o deseje!

Cresci a ouvir alguns conselhos dos meus pais:

- “Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti”,

- “A tua liberdade acaba quando a do outro começa”,

- entre muitos outros e, lembro-me da minha mãe me dizer, na minha adolescência: “Encontra um emprego que te faça feliz mas nunca te esqueças de ser financeiramente independente”. Foi um excelente conselho.

Tenho duas filhas adolescentes e já me ouvi dar-lhes várias vezes estes conselhos que me deram… e ainda lhes disse que um estalo nunca é sinal de amor. Nunca!

E também lhes disse que vejo adolescentes cada vez mais jovens com decotes imensos e calções cada vez mais curtos. Têm todo o direito de os usar, mas essa maneira de vestir não é poderosa, é simplesmente vulgar! Uma mulher pode estar vestida de fato ou usar lenço e ser muito atraente. A roupa não é muito importante, o fundamental é a atitude. A postura!

As mulheres podem ser extraordinárias. Conseguem passar a ferro enquanto fazem o jantar e ajudam os filhos nos TPC. Este é apenas um exemplo. Há muitos outros. E também é verdade que há homens que o conseguem fazer muito bem. Mas quais serão as estatísticas? Há mulheres que aturam uma vida inteira de terror para poder ficar com os filhos, porque não conseguem subsistir sem o companheiro e não querem ficar sem a sua prole. Quanta força é necessária para aguentar esta situação? Muita! É necessária muita força!

As mulheres têm a capacidade de dar vida. Este é um aspeto maravilhoso. Todos, homens e mulheres, tivemos mães!

Eu sou apenas um ser humano que respeita e quer ser respeitado! E, felizmente, há muitos seres humanos do género masculino (acredito que a maioria), extraordinários, que respeitam a mulher! Mas enquanto os números que acima referi persistirem, infelizmente, o sexo feminino é o mais fraco! E deveria apenas ser igual, em direitos e deveres!

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